Nem era um objeto muito grande.
O alvo também não o era.
O objeto tinha a espessura de uma agulha bem pequenininha.
E o alvo era de um tecido com a aparência de um músculo humano
mas de outra cor, com um interior cheio de boas lembranças e um cheiro de café
fresquinho.
E a alvo foi atingido a primeira vez. Furou. Respirou e
continuou.
Na segunda vez já tinha a lembrança implícita da primeira, então
o susto não foi grande. Já a dor...
Mas a agulhinha pequenina não sentia nada. E ela achava que
era muita indiferença do tecido não se afetar completamente com a presença dela,
era um furo tão pequenininho, o tecido nem devia sentir. Ela precisava
continuar a furar.
Então depois teve a terceira, quarta, quinta, trigésima
sétima, centésima, milésima quinta...
E os buracos se juntavam, formando uma grande figura no
tecido, com a aparência de uma flor.
Uma flor que ficava bem vermelha com o sangue que jorrava do
tecido/músculo.
O alvo/tecido não entendia porque a agulhinha continuava com
os furinhos pequeninos, mas profundos, que a modificavam. Eles a alteravam,
violavam, invadiam, machucavam, marcavam, agrediam.
E a agulhinha continuava achando que ou o tecido era muito
forte, porque continuava ali aguentando os furinhos, ou gostava muito do que
recebia, já que no final o desenho formado era de uma flor. Uma flor vermelha.
Vermelha como sangue.
Eles nunca conversaram sobre isso.
Ou até conversaram, mas o mundo particular de cada um era
tão distante que as palavras perdiam o sentido um para o outro.
Então cada um continuou com sua função.
Agulha. Furo. Tecido. Dor. Silêncio. Fim.
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