sábado, 3 de dezembro de 2011

Relato Tempestivo e Impetuoso


No dia 8 de novembro de 2011, acordo às 6:30 da manhã com um barulho insuportável de helicópteros que sobrevoavam o prédio em que sou hóspede no Butantã. Já era claro para mim que algo havia acontecido de errado na Universidade. A decisão “tempestuosa” de invasão/ocupação da reitoria não me agradava, mas era possível ir contra?
Pensando que esse ato reverbera outras inquietações, que há tempos tomava conta, infelizmente da minoria dos jovens, talvez fosse necessário ao menos, pensar sobre o assunto. Problemas de ordem político-social com a Universidade de São Paulo são rotineiros a uma parte desses estudantes, que lutam em via de regra, por um bem da mesma e porque não falar do Brasil. Sim, porque temos agora um problema de ordem nacional. É inocência dizer que o eixo principal de luta dos estudantes seja um problema só da USP, inocência e quase ignorância. Quando dizemos Fora PM! está imbuído aí primeiro, o pedido de fim do convênio assinado pelo reitor com a Polícia Militar, e segundo, o fim da ação dessa polícia que desde a ditadura se mantém com o mesmo exercício de represália por todo o território nacional.
No dia seguinte a invasão da PM aconteceu na ECA uma assembleia de posicionamento de todos os cursos e eu estava presente. Mas qual era o nosso posicionamento? Nós nem havíamos parado para falar sobre o assunto. O “ímpeto” foi de naquele exato momento tentar de alguma forma conversar, discutir e pensar com “todos” os meus colegas.
A conversa que se iniciara com toda a escola acontecia em um ato que me lembrava muito todo o movimento de nosso estudo. A comparação era imediata, não existia em minha cabeça nenhuma separação. Era um momento de revolta, de não encaixe aos padrões que até ali existiam, algo precisava ser transformado, e como artistas essa transformação tinha de ocorrer a partir dos nossos afazeres artísticos. 
A “emoção” era presente em cada fala, naqueles que não se posicionavam, nos contra e nos favoráveis, mas tudo o que era exposto nos tocava fundo em um lugar bem peculiar da emoção. E foi por esse viés que começamos a agir, levados por esta emoção, que atravessava por muitas vezes a nossa razão. Tivemos então a nossa participação junto ao movimento, na segunda assembleia geral dos estudantes. Ali, podemos participar do ápice de demonstração desse ímpeto, dessa tempestade, dessa emoção. Eram três mil vozes que repetiam em coro, frases que explicavam e orientavam quais seriam as ações realizadas. Era impossível não nos emocionarmos. Foi a visualização de um recurso, que estudamos como sendo utilizado à cinco séculos a.c. E estava acontecendo ali, na nossa frente. A ágora estava implantada e as decisões eram tomadas em coro, com a participação decisiva e irrevogável daquele coletivo.
Após este momento de êxtase, a reflexão era mais forte. Podia eu me sentir uma Strurm und Dranger? A resposta era clara! Sim. E porque não? Já que havíamos acabado de ser o corifeu em uma ágora do tempo presente? Pensando no contexto de um movimento que recusou todas as normas que, embora válidas racionalmente, pudessem limitar o desenvolvimento individual, eu me sentia completamente “contemplada”.
Mas esta é uma história que não acaba aqui. Muitas ações tempestuosas ainda vão ser tomadas, o ímpeto há de permear nossos dias. Espero eu, que continuo na minha inquietação de não passar alheia ao meu redor, atenta ao zeitgeist desse tempo, que posso ainda errar muito, mas me faço viva. Sempre viva! Viva!
Viviane da Silva Almeida
Turma 63 - EAD

Propriedade
Sei que nada me é pertencente
Além do livre pensamento
Que da alma me quer brotar,
E cada amigável momento
Que um destino bem-querente
A fundo me deixa gozar.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Canções"
Tradução de Paulo Quintela
** ENSAIO PARA TRABALHO COLETIVO DE FINALIZAÇÃO DO 2º TERMO DA EAD.**

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

I N A D E Q U A Ç Ã O

A sensação é de ficar cada vez mais pequenina,o mundo cresce ao seu redor e por um instante você não consegue se mecher.
Você fica ali, esperando que tudo isso passe. Que as cores e formas voltem ao normal.
Mas elas não voltam, talvez nunca voltem...

A respiração fica cada vez mais rápida. É muito ar querendo entrar, você não dá conta.
Parece que você não vai conseguir. Tudo isso dura segundos. Mas no "seu diminuir", a impressão é de uma eternidade.

Você não pertence a esse lugar, estas pessoas não te dizem respeito.
Quem são elas? Onde você esta? Quem é você? Onde você esta? A sensação de não pertencimento chega a doer.

Tudo tem um lugar. Eu também? Tudo é muita coisa. Não sei se faço parte desse tudo.
Eu não faço parte desse tudo.
Esse tudo não faz parte de mim!
Chega a dar vergonha da medíocridade que é tentar encaixar-se nesse "não" lugar.
Estou com muita vergonha. Muita vergonha.


Não quero mais.

Não...

mais... 

terça-feira, 24 de maio de 2011

CHEIA POR FORA E VAZIA POR DENTRO**


Escrito dia 26 de abril de 2011

Dá uma angustia... uma dor no peito... mas uma hora cansa. Preciso me desligar de tudo o que não me alimente, que não me faça crescer. Existe um mundo todo lá fora que me espera, e eu já não posso mais ficar à SUA espera. Não queria acreditar por mais que me avisassem que você seria assim. Você já desistiu de você e agora... eu também desisto. DESISTO DE VOCÊ, PARA NÃO DESISTIR DE MIM...
O que acontece? Que tudo fica cada vez mais difícil é obvio. Mas a minha falta de persistência me irrita. Parece que não consigo fazer nada por completo. Não sei o que me toma. A preguiça que sinto é maior do que qualquer sentimento. Prefiro dormir a qualquer tipo de atividade. Isso me irrita, muito. Fico projetanto como as coisas poderiam ser, ou poderiam ter sido e não saio do lugar. To muito, muito impotente. E pra ajudar ainda tem você, que me perturba, me tira do centro, me desconcentra, me faz viajar, e me maltrata, me ignora, me machuca. Eu me machuco. Eu me martirizo. Tenho tantas situações em aberto, coisas que eu não gostaria que estivessem assim. Estou chegando a conclusão de que preciso de ajuda novamente. Porque eu me deixo chegar SEMPRE à essa situação? Ta tudo MUITO bagunçado, eu não tenho foco, não sei quem sou e nem onde vou chegar. O que eu sou? O que eu tenho? Preciso enxergar o mundo de uma outra perspectiva, mas parece que existe uma venda em meus olhos que eu tenho uma preguiça enorme de tirar... não consigo me regrar com relação a nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada...

Tantas coisas a fazer, e eu aqui, nesse apartamento... muitos acham isso um ganho... mas eu particularmente... Preciso encontrar o valor correto das coisas.

Cheia por fora, e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. Cheia por fora e vazia por dentro. 

Solidão, solidão... sozinha dentro da minha solidão...
Solidão é se sentir  sozinha em meio a uma multidão. Eu estou... 
 
PS: SAUDADE. Saudade da voz, do cabelo, do sorriso, da barba, do bigode, do cheiro, do gosto, da textura, da porosidade, do sussurro, da risada, da gargalhada, da genital, das mãos, do peito, das costas, das nadegas, do silencio, da conversa, da nudez, da compreensão, da incompreensão, do tom da voz, da respiração, do toque, do sexo, dos dedos, do beijo, de você.


** TEXTO INTEIRAMENTE FICCIONAL. QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE É PURA COINCIDÊNCIA