Na verdade é engraçado mesmo
É tipo uma comédia dessas em que o mocinho faz tudo certinho
mas no final tropeça deixando tudo cair em cima da cabeça dele.
E aí a gente rí.
Rí, porque é engraçado mesmo, ou porque a gente sente
vergonha alheia, ou porque a gente tem dó.
Mas a gente rí.
E não tem como não rir.
E tudo acontece em um dia de eclipse. Dizem que acontecerá
um fenômeno na terra em que ficarão muitos dias na escuridão... Demorará para
verem o sol nascer novamente. É um fenômeno que acontece de muitos em muitos
tempos, e que nunca se sabe quanto tempo demorará pro dia clarear... mas ele
clareia... um dia.
Nessa história temos uma mocinha.
Ela é desses tipos engraçadinha, sabe? Dessas que não é nem
bonita, nem muito feia, nem alta, nem muito baixa, nem preta, nem muito
branca... Ela é engraçadinha. Não é sexy, e nem se atenta muito pra beleza. Tem
seu próprio estilo, que não é fashion, mas também não é ridículo. É normal.
Normal não. É engraçadinha.
Descobri que é mais digno falar que algo é engraçadinho...
assim se anula a culpa de achar aquilo extremamente deprimente e ter pena. Não
se diz o que se acha realmente. Se diz que é engraçadinho...
Voltando a nossa mocinha, ela levava uma vidinha mais ou menos,
num trabalho mais ou menos, numa escola mais ou menos. Morava em uma casa mais
ou menos, num bairro mais ou menos... Ia a bares mais ou menos, ouvia música mais
ou menos...
Então perdeu o seu olhar em um rapaz com olhar de menino sapeca
e sorriso de quem aprontou... Ele era mais.
Ele também olhou pra ela. Ele não se achava mais. Na verdade
ele sempre se julgou menos.
A junção foi imediata. Foi uma troca de potências, sinais,
até a matemática ficou confusa...
Ela se sentia mais... Não era mais normal. Nem Engraçadinha.
Ela era... somente era.
Ele demorou pra dizer pra ela no que ele havia se transformado.
Ela conviveu muito tempo ao lado dele, sem entender o que de fato havia se alterado
no menino de olhar sapeca.
Até que um dia ele disse. Disse tudo. Disse muito. Disse tanto
que a mocinha , resolveu gravar tudo em fitas k7’s bem pequenininhas... Tudo o
que ele disse ia ficar registrado pra sempre, e a partir dali uma nova história
ia nascer.
E a nossa mocinha ficou tão feliz, mas tão feliz que voltou
a ser engraçadinha...
Saiu flutuando com as fitinhas todas na mão. Aquele era o
seu tesouro.
Então parou pra amarrar o All Star, e colocou o tesouro no
chão. Passou um cachorro e a mocinha foi lhe dar algo pra comer... pegou um
pacote e entregou ao animalzinho... o pacote errado. Entregou todas as fitas e
ficou com o lanche de mortadela nas mãos. Quando se deu conta procurou o
cachorrinho, mas ele quando viu que não tinha nada pra ser alimentar levou o
tesouro até um poste. Ela correu com o sapato desamarrado e quando ia chegar
perto do poste caiu com a saia levantando e mostrando toda sua calcinha, que
era rosa cheia de rendinhas brancas. Levantou-se, mas não foi tão rápida quanto
o lixeiro, que pegou o pacote e jogou no caminhão. Ela tentou correr atrás mas
suas perninhas eram curtas demais pra alcançar a rapidez do caminhão.
Acontece que o lixeiro viu um nome escrito no pacote...
“Rapaz de olhar de
menino sapeca”. Putz... ele conhecia esse rapaz. Aliás, quem não conhecia
esse rapaz. Assim que encerrou o expediente ele levou o pacote até o rapaz,
junto de algumas cervejas...
- Olha aí, encontrei esse pacote no lixo. Mas como tem seu
nome achei melhor trazer até você.
Há essas horas nossa mocinha, já tinha chorado, se
descabelado, brigado com o cachorrinho, brigado com o All Star... E estava
voltando até a casa do Rapaz de sorriso de quem aprontou pra tentar se
desculpar. Ela e o cachorrinho, que acabou se tornando seu melhor amigo.
De longe, ele olhou pra ela. Ela sentia a decepção do olhar.
Ele não disse nada.
Ela tentou dizer.
Dizer que não foi exatamente culpa dela, que ela não teve
intenção, que foi um acidente, mas que ela sabe que tudo o que ele disse era
verdade, que ele se entregou e ela também, e que o que os dois tem agora, ela
nunca teve e nem nunca terá com ninguém...
Quando ela se aproximou ele sussurrou:
- Não há nada que não se cure na manhã seguinte.
Poxa, custava xingar, esbravejar, falar que ela é uma
idiota, que ele confiava nela, que ela estragou tudo, que não há desculpa, que
ele está muito bravo... sei lá...
Ela então resolveu esperar amanhecer...
Acontece, que era um dia de eclipse...
Não é engraçado?
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